"Mas agradeçamos a Deus, que nos dá a vitória por meio do nosso Senhor Jesus Cristo. I Co 15.57"

A CRUZ - Sétima Marca da Presença da Igreja no Mundo

A razão se escandaliza com a cruz, mas a fé a abraça com alegria
(Martinho Lutero)
                Querido povo de Deus. A frase dita por Lutero traz a tona uma palavra muito dura do ponto de vista humano! A realidade de que o ser humano terá de enfrentar sofrimentos neste mundo, independente do papel que ocupe na vida pessoal, familiar ou social e congregacional. No texto do evangelho de Mateus, Jesus também sublinha esta realidade de uma forma bem incisiva, lembrando as consequências que enfrentará aquele que se propõe a segui-lo: “...quem não toma sua cruz e vem após mim não é digno de mim.” (Mt 10.38) Aliás, o que significa de fato tomar a sua cruz? Significa assumir e aceitar as consequências que resultam de uma vida firmada na fé em Cristo Jesus. Uma vida sob a cruz é tudo o que enfrentamos por causa de nossa fé. Uma cruz pode ser uma doença, que confronta nossa fé. Uma cruz pode ser uma perda dolorosa de alguém que amamos que também meche conosco, uma cruz pode ser um conflito familiar. Quando falou da cruz como marca da igreja Lutero declarou: “Em sétimo lugar se reconhece exteriormente o santo povo cristão no meio de salvação da santa cruz: que ele tem que sofrer de toda sorte de desgraça e perseguição, toda espécie de tentação e mal (como se ora no Pai-Nosso) da parte do diabo, do mundo e da carne, afligir-se, desalentar-se, atemorizar-se interiormente, ser pobre, desprezado, doente, fraco, sofrer exteriormente a fim de tornar-se semelhante a sua cabeça, Cristo”.1
Há uma série de verdades afirmadas por Lutero sobre a cruz.
              1 – A cruz é refúgio para o pecador – Em Mateus 10.36 Jesus declara:  “Assim, os inimigos do homem serão os da sua própria casa.”  O Salvador estava chamando a atenção para a realidade de que até mesmo dentro do lar pode haver sofrimento! As divisões dentro da família, as discórdias, são cruzes que todos nós também carregamos. Porém, a cruz de Cristo representa refúgio para o pecador.  E motivo para isso tudo deve ser unicamente o fato de se ater firmemente a Cristo e a palavra de Deus e, portanto, sofrer por amor de Cristo, Mateus 5.11: “Bem-aventurados os que sofrem perseguição por minha causa.”(Lutero)  As vezes, por causa da vontade de Deus oposta a vontade humana, sofremos em vista dessa decisão. Lutero aponta esta consequência. Nesse sentido, a cruz se torna refúgio para o pecador.
2 – A cruz é oportunidade para testemunho! Lutero destaca que os cristãos “devem ser piedosos, quietos e obedientes, dispostos a servir as autoridades e a cada qual com corpo e bens, não causar mal a ninguém.”
Está dizendo que ao enfrentarmos as consequências de uma vida sob a cruz, além de fortalecermos aqueles que estão na mesma situação que nós, também damos uma demonstração a quem vive sua vida de forma dissoluta, descomprometida, que a vida neste mundo não é uma brincadeira. Que não é uma vida sem propósitos! A vida é um dom de Deus, algo muito precioso. A sabedoria que vem do alto é necessária para compreendermos que uma vida vivida sob a cruz é uma vida com altos e baixos, com alegrias e tristezas, numa batalha constante entre a nova natureza em Cristo Jesus e a velha natureza humana pecadora, existente em nós. Ao vivermos esta vida de maneira consciente, ligados em comunhão com Deus, damos um testemunho de vida.
3 – A cruz é meio de Salvação! Lutero declara: “Pois com esse meio de salvação o Espírito Santo não apenas santifica este povo, mas também o torna bem-aventurado.” Através da vida sob a cruz, Deus santifica seus filhos. Sim, a partir do momento em que passo a viver uma vida resignada, aceitando as dificuldades e enfrentando-as pela fé em Cristo Jesus, eu passo a viver um processo de amadurecimento contínuo, onde minha fé é provada. E ao ser provada, minha fé vai sendo fortalecida porque minha suficiência não vem de mim mesmo, mas vem daquele que por mim deu sua vida.
Desta forma, uma vida sob a cruz, é extremamente difícil. Mas é bom lembrarmos que não é uma vida limitada a este mundo. Jesus deixa evidente esta verdade ao declarar: “Quem acha a sua vida perdê-la-á, quem, todavia, perde a vida por minha causa achá-la-á.” (Mt 10.39) Jesus estava falando de achar a vida verdadeira, a vida eterna. Ao renunciarmos a nossa vontade humana, e passarmos a confiar plenamente nele, numa vida sob a cruz, estamos caminhando no rumo da vida eterna.
Assim, Lutero descreve a vida sob a cruz como uma marca da igreja cristã, pois desta maneira, os cristãos estão sob a condução, sob a jurisdição de Jesus Cristo, e assim, seguem uma vida santificada rumo a salvação eterna. Isso contraria a popular teologia da glória, que declara que todo cristão é vitorioso, e que não pode aceitar derrotas na vida, pois é sempre um vencedor. Nosso viver neste mundo nos mostra exatamente o contrário, uma vida de altos e baixos, onde o poder de Deus se aperfeiçoa em nossa fraqueza, como diz o apóstolo Paulo.
            Portanto, que possamos nós, deixar as ilusões de lado, e assumirmos de fato uma vida sob a cruz, seguros de que esta nos leva a feliz eternidade. Amém.
                                                                         Pastor Valdir Lopes Júnior

1 LUTERO, 1992, p.421.

A ORAÇÃO - Sexta das Sete Marcas da Presença da Igreja no Mundo

Querida congregação. Há uma frase que é atribuída a Lutero que diz mais ou menos assim: “A oração é o suor da alma.” Acredito que seja essa dimensão profunda da oração que tenha levado Lutero a declarar a mesma como uma marca da igreja cristã:  “Em sexto lugar se reconhece exteriormente o santo povo cristão na oração pública de louvor e agradecimento a Deus”.1
              Pois a oração traz consigo um aspecto de testemunho: Pois onde vês e ouves que se ora e aprende a orar o Pai-Nosso e também se cantam salmos e hinos espirituais, segundo a palavra de Deus e a verdadeira fé, e além disso se ensina o Credo, os Dez Mandamentos e o catecismo publicamente, podes ter a certeza de que aí esta um povo de Deus santo e cristão.” Lutero também está dizendo que onde se dobram os joelhos e se faz oração, o testemunho é dado com mais vigor! Aliás, temos orado com nossas famílias? Temos orado com nossos filhos? Sim! Oração é testemunho não só na igreja, mas também em família!
“Pois a oração também conta entre os preciosos meios de salvação, por meio do qual tudo é santificado, como diz S. Paulo (1Tm 4.5). Também os salmos são oração pura, por meio dos quais se louva a Deus, lhe agradece e o honra. Igualmente o Credo e os Dez Mandamentos são palavra de Deus e tudo são puros meios de salvação, pelos quais o Espírito Santo santifica o santo povo de Cristo.” Santificação é ser “tornado santo”. Ao orarmos, Deus, através do Espirito Santo nos torna mais santos, animando para uma vida dedicada a Ele. É por esta razão que lemos os salmos no culto. É por esta razão que declaramos o credo, estudamos os mandamentos, dizemos o Pai Nosso. São orações através das quais Deus prepara seus filhos para enfrentarem as dificuldades de uma vida sob a cruz. Desta maneira, também podemos descrever a oração como um “diálogo com o Pai”. “No entanto, referimo-nos a oração e ao canto compreensível, por meio do qual se pode aprender algo e emendar-se. “ A parábola do filho pródigo é um belo exemplo: “Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho.” (Lc 15.21) Esta frase soa como uma oração, não é verdade? É um pedido de perdão que demonstra a necessidade de reconhecer a deficiência aos olhos de Deus, e então ser acolhido por Ele, como foi o filho com um caloroso abraço do pai. Aliás, este é o uso adequado da oração, onde se tem um diálogo aberto com o Pai, não apegando-se a forma exterior, coisa que Lutero condenou em seu tempo, mas ao momento íntimo de comunhão sincera! 
Certa vez, Lutero escreveu uma pequena carta a um amigo, chamado Pedro Beskendorf, ou como era conhecido por causa de sua profissão: Pedro barbeiro. O título da carta é: “Como se deve orar, para o mestre Pedro barbeiro”. 
               Lutero escreveu a seu amigo enfatizando a necessidade de dedicar-se a oração com atenção: “Assim, um barbeiro aplicado e competente tem que voltar seu pensamento, sua atenção e seus olhos, com muita precisão para a navalha e os cabelos, e não se descuidar, não sabendo que esteja afiando ou cortando. Mas, se ele, ao mesmo tempo, quisesse fazer muita conversa ou ficar pensando ou olhando outras coisas, certamente iria cortar fora a boca ou o nariz, e até o pescoço. Desta forma, cada coisa que é para ser bem feita, quer ter a pessoa inteira, com todos os seus sentidos e membros, como se diz: - Quem pensa em muita coisa, não pensa em nada, também não faz nada direito. Tanto mais a oração precisa ter o coração uno, por inteiro e exclusivo, se é que se deva ser uma boa oração.”  (Pelo Evangelho de Cristo, p. 323)
A oração é uma marca da igreja cristã, pois mostra um diálogo intimo e completo, entre o Pai Maior e seus filhos. Por isso, cultivemos essa marca entre nós, orando coletivamente e individualmente, de corpo e alma. Amém.
Com carinho, pastor Valdir.

O MINISTÉRIO PASTORAL - Quinta das Sete Marcas da Presença da Igreja no Mundo

            Estimados em Cristo Jesus. O que acontece com uma congregação quando fica sem pastor? Lutero estava atento às consequências enfrentadas na igreja quando da ausência do ministério pastoral, pois segundo ele, o ministério é uma das marcas da verdadeira igreja cristã. Assim ele declara:
            "Em quinto lugar se reconhece a igreja exteriormente no fato de consagrar ou convocar servidores eclesiásticos, ou de ter cargos que ela deve prover".1
            O ministério pastoral é uma marca da igreja cristã, pois através dele a igreja administra de forma efetiva os meios da graça concedidos por Deus a ela, na terra. Existe uma frase muito popular que diz mais ou menos assim: "existe muito cacique pra pouco índio". É uma frase que descreve uma situação onde existe muita gente no comando, gerando uma confusão de idéias e diretrizes. Se na igreja cristã, não houvesse o ministério pastoral, esta viveria em eterna confusão, pois estaria sujeita a opiniões de muitos, enquanto que com a presença do ministério pastoral, existe o compromisso de que estejamos voltados para o que Deus tem a nos dizer, e não pelo que pensamos ser o correto. Jesus deixa bem clara esta preocupação no evangelho de Marcos: "ao desembarcar, viu Jesus uma grande multidão e compadeceu-se deles, porque eram como ovelhas que não tem pastor. E passou a ensinar-lhes muitas coisas." (Mc 6.34) Esta responsabilidade de pastorear, foi repassada aos discípulos, quando estes lhe disseram que despedisse a multidão para que procurasse o que comer: "Dai-lhes vós mesmos de comer." (Mc 6.37a) O fato de Jesus delegar a seus discípulos, no texto de hoje, a responsabilidade de alimentar aquela multidão, era uma responsabilidade muito maior do que simplesmente "encher a barriga", era uma preocupação pastoral, espiritual.
            Por isso, nunca é demais lembrar as responsabilidades, ou melhor, os requisitos que se espera, sejam cumpridos na vida de um ministro do evangelho, conforme 1Timóteo 3.1-7. A responsabilidade que recai sobre um ministro da palavra é grande e deve sempre ser exercida também tendo a consciência de que traz consigo a marca da igreja cristã.
            No entanto, falando o bom português, o pastor não faz nada sozinho. Está colocado aqui, nas entrelinhas, aquilo que chamamos de sacerdócio universal de todos os santos. Em outras palavras, somos todos pequenos sacerdotes dentro do corpo de Cristo, a igreja. Para isso temos professores de escola dominical, de doutrina. Para isso temos diretorias, lideranças, voluntários que auxiliam na vida da congregação. Portanto, como diz o ditado: "uma andorinha só não faz verão"! É necessário que exerçamos nosso sacerdócio universal em cooperação. Onde cada um pode contribuir com seus dons ali onde houver chance, ali onde for solicitado. Não concentrando o poder na mão de um ou de outro, mas compartilhando das bênçãos, dificuldades, desafios que Deus coloca diante de nós. Se assim o fazemos, Deus tem um caminho aberto por onde semear sua salvação já conquistada em Cristo Jesus.
            Querida congregação, Lutero encerra suas considerações sobre o ministério pastoral como marca da igreja cristã, dizendo uma palavra muito bonita, que remete a comunhão necessária que devemos cultivar enquanto igreja de Cristo no mundo: "Onde, pois, encontras semelhantes cargos ou encarregados, podes ter a certeza de que aí há de estar o santo povo cristão, pois a Igreja não pode existir sem tais bispos, párocos, pregadores, sacerdotes, e por sua vez, esses não podem ser sem a Igreja. Ambos tem que estar juntos." Que possamos ser cooperadores na obra do Senhor, não por prestígio, vaidade, necessidade de poder, mas lembrando que Deus nos cobrará em nossas responsabilidades e no trato com nossos irmãos e irmãs na fé. Lembremos de duas palavras bíblicas, a primeira dirigida aos ministros em 1Pe 5.2: "pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade;" e a outra dirigida aos congregados em Hebreus 13.17: "Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros." Sejamos cooperadores na obra de Deus, para que sua palavra de salvação possa chegar aos ouvidos daqueles que "são como ovelhas que não pastor". Amém.
                                                              Com carinho, pastor Valdir

O OFÍCIO DAS CHAVES - Quarta das Sete Marcas da Presença da Igreja no Mundo

         Estimados em Cristo Jesus, a doutrina do ofício das chaves é um assunto importantíssimo ma vida da igreja cristã. Especialmente porque é um poder delegado por Jesus a sua igreja na terra, afim de administrar o perdão, concedendo-o ao pecador arrependido ou retendo-o ao pecador impenitente. Vejamos como Lutero expõe esta marca da santa igreja cristã.
                   "Em quarto lugar se reconhece o povo de Deus ou os santos cristãos nas Chaves que usam publicamente". O ofício das chaves tem dois usos: um público e outro particular!
- O ofício das chaves no seu uso público:
                  "...há os que são tão empedernidos que não querem perdoar nem no coração nem diante do cura de almas em secreto, nem deixar dos pecados".i
Lutero está esboçando a realidade do pecador impenitente. É necessário que seja confrontado com a lei de Deus. Lei esta que não segue preceito de homens, mas a vontade de Deus. Lei esta que está devidamente esboçada em seus dez mandamentos e é proclamada aos quatro ventos na Escritura Sagrada, como bem recomenda Mateus 18.15-15: "Se teu irmão pecar [contra ti], vai argui-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça. E, se ele não os atender, dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano. Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra terá sido ligado nos céus, e tudo o que desligardes na terra terá sido desligado nos céus." Qual o tempo necessário para tais passos? Não se tem um padrão, nem se pode afirmar prazos ou tempo. O que não devemos ter pressa é em dar por definitivo uma solução, antes que Deus Espírito Santo possa trabalhar no coração daquele que é admoestado publicamente. Lembremos que há nos céus maior júbilo por um pecador que se arrepende do que por 99 que já estão salvos.
- O ofício das chaves no seu uso particular:
                      "...há pessoas tão tímidas e desanimadas na consciência que, ainda que não sejam condenadas publicamente, não se podem consolar antes que consigam uma absolvição particular de seu cura de almas."
                        Lutero destaca o efeito benéfico da confissão particular. Aliás, essa é uma das funções do cura d'almas, ou seja, o pastor. Muitas vezes o pastor recebe pessoas que vem compartilhar suas dificuldades, e não é raro de acontecer de tal pessoa confessar seus pecados, alguns até mesmo escandalosos. Após demonstrar seu verdadeiro arrependimento, o pastor lhe anuncia o perdão dos pecados. Em maior escala, este momento também é vivido no culto. Quando confessamos os pecados em conjunto, e recebemos o anúncio do perdão, é como se fosse o próprio Cristo anunciasse a boa nova do perdão de pecados pela boca do ministro da palavra, o pastor. É por isso que, se eu chego atrasado no culto, por exemplo, e perco o momento da confissão de pecados, é como se tivesse perdido metade do culto, já que este momento é importantíssimo para o ouvir da palavra de Deus e participar do altar. 
O ofício das chaves - marca da igreja cristã
                        "Pois Cristo as deixou [as chaves] para que sejam um sinal público e um meio de salvação por meio do qual o Espírito Santo (por conquista pela morte de Cristo) santifique novamente os pecadores que caíram em pecado, e que por meio delas os cristãos confessem que são um povo santo sob Cristo neste mundo."
O ofício das chaves é uma marca da igreja cristã, porque pertence a Deus! Sim, sua eficácia não está presa a figuras humanas. Lutero declara que o ofício não pertence ao que o administra, mas é algo delegado por Cristo a sua igreja, ao corpo de Cristo, para que se faça bom uso deste, admoestando corações e trazendo-os mais para perto de Deus.
                       Mais perto de Deus. Não tenhamos dúvidas de que este é o objetivo que está por detrás do ofício das chaves. Estamos mais perto de Deus, especialmente na vida eterna. Que possamos sempre ter a grandeza de dobrarmos os joelhos arrependidos, e na presença do Senhor recebermos seu maravilhoso perdão. Amém.
                                                                  Com carinho, Pastor Valdir.